Estudo com mais de 15 mil genomas indica que até 29% da propensão aos 'chills' tem influência genética; traço se relaciona à abertura a experiências

Arrepiados - Ciência Viva
A sensação é conhecida por muitos: um arrepio súbito ao ouvir uma melodia marcante, ao ler um poema ou ao contemplar uma obra de arte. Agora, um estudo publicado nesta quarta-feira (18), na revista PLOS Genetics, indica que essa resposta emocional intensa — os chamados chills estéticos — é parcialmente determinada por fatores genéticos.
A pesquisa, intitulada “Genetic underpinnings of chills from art and music” (bases genéticas dos arrepios provocados por arte e música), analisou dados de 15.606 pessoas com informações genômicas disponíveis na coorte holandesa Lifelines. No total, mais de 35 mil adultos responderam a questionários sobre a frequência com que sentem arrepios ao ouvir música ou ao ter contato com poesia e artes visuais.
Os resultados mostram que até 29% da variação individual na propensão a esses arrepios pode ser explicada por efeitos ligados ao parentesco familiar. Cerca de um quarto dessa parcela é atribuída a variantes genéticas comuns identificáveis por chips de genotipagem — os chamados SNPs (polimorfismos de nucleotídeo único).
“Encontramos evidências claras de que a propensão a sentir arrepios diante de expressões artísticas é influenciada por variação genética aditiva”, afirma o pesquisador Giacomo Bignardi, do Max Planck Institute for Psycholinguistics, autor principal do estudo. Segundo ele, os dados indicam que os chills podem representar um “vetor de variação biológica” nas respostas humanas à arte.
Herança parcial e lacunas genéticas
A análise utilizou um método estatístico chamado GREML, que compara a semelhança genética entre indivíduos com a semelhança nos traços observados. A herdabilidade baseada em SNPs foi estimada em 6% para arrepios estéticos (ligados a artes visuais e poesia) e 7% para arrepios musicais. Já a herdabilidade total associada ao parentesco (h²PED) chegou a 24% e 29%, respectivamente.
Isso significa que fatores ambientais, experiências pessoais e até processos aleatórios do desenvolvimento também desempenham papel relevante.
“O fato de a herdabilidade baseada em SNPs explicar apenas parte da herdabilidade total sugere que ainda há ‘herdabilidade perdida’, possivelmente associada a variantes raras, efeitos genéticos não aditivos ou interações gene-ambiente”, escrevem os autores.
Estudos anteriores com gêmeos já haviam estimado que entre 36% e 43% da variação nos arrepios estéticos poderia ter base genética. A nova pesquisa, ao utilizar dados moleculares diretos, reforça a existência de influência genética, mas com estimativas mais conservadoras.
Música e arte compartilham base biológica
O estudo também investigou se os arrepios provocados por diferentes formas de arte compartilham os mesmos fundamentos genéticos. A correlação fenotípica entre arrepios estéticos e musicais foi de 0,43 — um vínculo moderado.
No plano genético, a correlação estimada foi de 0,58, indicando que parte substancial das variantes associadas à sensibilidade a uma forma de arte também se relaciona à outra.
“Isso sugere que existe uma base genética parcialmente compartilhada para respostas emocionais intensas a diferentes modalidades artísticas”, afirmam os autores.

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Relação com traços de personalidade
Os pesquisadores ainda testaram se a propensão aos arrepios estaria ligada a características mais amplas de personalidade. Para isso, utilizaram um índice poligênico de “abertura à experiência” — traço associado a imaginação ativa e interesse artístico — derivado de um estudo genômico com 220 mil pessoas.
O índice mostrou associação significativa tanto com arrepios estéticos quanto musicais, embora explique fração pequena da variação total (0,3% e 0,1%, respectivamente).
“Mesmo sendo percentuais modestos, eles estão dentro do esperado teoricamente, dado o tamanho das amostras e a herdabilidade envolvida”, diz a equipe. Em outras palavras, pessoas geneticamente mais propensas à abertura a experiências tendem, em média, a relatar mais arrepios diante da arte.
Implicações e limites
A pesquisa foi conduzida com participantes majoritariamente de ascendência europeia residentes no norte da Holanda, o que limita a generalização para outras populações. Além disso, as medidas se baseiam em autorrelato — o que pode introduzir erro de mensuração.
Ainda assim, os autores defendem que o trabalho abre caminho para investigações mais amplas sobre a biologia das experiências estéticas.
“Estudar os arrepios oferece uma janela para compreender como fatores genéticos e culturais interagem na forma como respondemos à arte”, escrevem.
Para além da curiosidade científica, os resultados dialogam com debates clássicos sobre a natureza da sensibilidade artística. Se parte do arrepio que percorre a espinha ao ouvir um coral ou ler um verso memorável nasce no DNA, a emoção estética pode ser, ao menos em parte, uma herança biológica — modulada, mas não determinada, pelo ambiente e pela cultura.
Referência
Fundamentos genéticos dos arrepios causados ??pela arte e pela música. Giacomo Bignardi, Danielle Admiraal, Else Eising, Simon E. Fisher. Artigo de pesquisa | publicado em 18 de fevereiro de 2026 na PLOS Genetics. https://doi.org/10.1371/journal.pgen.1012002